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Notas marginais
......... deste lado do rio Mas o rio era profundo, ............... flores A moça ........................ Ele ficou amarelo, Anoiteceu ........................ .................................................. Na margem do papel marcado, onde se viam ainda estes restes duma velha cantiga, alguém escreveu estas notas desordenadas e estranhas: I Ó doce cantiga dos namorados da beira do rio, tu és uma verdade sempre nova! Ainda hoje o triste anda penando nas águas escuras; e os teus olhos, ó serena rapariga, são eternamente falsos! Não era assim que eu pensava no tempo daqueles nossos amores, o nome que eu não escrevo! daqueles amores tão doces como a suavidade das nossas noites de Outono - tão coloridos e vagos como aquelas nuvens, que sempre no ar andávamos formando e desmanchando! II Ó voluptuosidade! tu és a imagem do Oceano nos teus caprichos. Agora embalas-te, docemente dourada com os últimos raios do Sol: depois dormes tranquila, aos sabores silenciosos: por fim, agitas-te, cheia de tempestades. III E, quando eu te via, não via mais as flores, nem as pombas, nem as estrelas: mas, quando pensava em. ti, via-te delicada como todas as flores, voluptuosa como todas as pombas, luminosa como todas as estrelas. IV Ás vezes, solitário e silencioso, via passar na sombra, diante de mim, como uma legião de inspirações rapsódicas, os teus olhos húmidos, como violetas debaixo de água depois os teus braços da cor do mármore depois os teus cabelos negros e flutuantes... Enfim, sobre um fundo maravilhoso, tu aparecias superiormente serena, perfeita e luminosa. V De cada um. dos teus desejos nascia uma flor. E os meus suspiros, como a aragem serena da tarde, embalavam docemente aquelas flores marginais. E as flores cresciam, cresciam até se tornarem. magnólias grandes; o vento tomava-as preguiçosamente pela haste; e elas, inclinando os seus restes pálidos, contavam-lhe os perfumes de mais segredo. E as magnólias iam crescendo até se tornarem numa árvore imensa. Então o vento enroscava-se nos troncos, insinuava-se nos ramos, e fazia palpitar as folhas sonoras. E então a árvore estremecia, como num sonho agitado; depois adormecia e dava em redor uma sombra serena e consoladora. VI Quando te vejo, despertam no meu pobre coração as melodias e as doces melancolias de amor, como na Primavera se reanimam as aves e desabrocham as violetas. Quando me falas, tudo se alumia com constelações apaixonadas, e parece que passam dentro de mim todos os aromas das magnólias. Mas se me dizes que me queres muito, sinto que vem logo um estranho Inverno descorar-me as faces, desfolhar-me a alma de todas as emoções, e cobrir de geada todos os loucos desejos Oh! nunca me digas que me queres muito! VII Tua irmã é carinhosa, e doce, e meiga, e casta, e consoladora. Tu és altiva, inquieta, e desdenhosa. Tua irmã!... Mas se ela não tem o timbre suave da tua voz, o luminoso fulgor dos teus olhos, a cor mimosa dos teus cabelos! Mas se ninguém tem a santa, a purificadora brancura da tua fronte! VIII Os teus olhos negros são como duas flores do mal. Os teus olhos azuis são como duas doces elegias. E a flor do loto, a apaixonada flor do loto, somente se abre à doçura imensa da Lua! IX Oh! minha bem-amada! eu já vi os teus olhos brilharem dolorosamente, como duas estrelas negras de melancolia: tinhas tu então rasgado um véu cor de papoula, que te cobria. X Tu estavas na igreja, curvada e perdida nas tuas orações, como uma fidalga espanhola. Tinhas um olhar velado e piedoso, um olhar que só dizia Jesus! Mas nos lábios tinhas um colorido aveludado e luminoso, como o das flores vermelhas metidas na água; e na linha de sombra dos teus lábios corria um sorriso, que só dizia amor! Talvez um dia ainda te encontre na igreja... Somente, então, os teus lábios estarão descorados como a fadiga e tímidos como o arrependimento. Somente, então, os teus olhos estarão fixos como os dos esfomeados, e terão aquela luz desejosa e ávida, que têm as estrelas. XI Foi debaixo das árvores. Voavam as pombas brancas. Morriam aromas de violetas. Os castanheiros, grandes e concentrados, ouviam subir a seiva. Foi lá que me disseste aquelas palavras, que me pareceram uma blasfémia que te vinha do coração. Eu fiquei hirto e nulo, como um sacerdote esbofeteado pelo seu Deus! XII Eu tinha o rosto coberto de lágrimas: e ela compunha as pregas do seu vestido! As vezes o grande mar embalava-se preguiçoso, enquanto as ondas pequenas - as pobres ondas! soluçando, choravam sobre a areia. XIII Houve um tempo em que andavam exiladas dos lugares humanos as estátuas, que tinham feito a lenda da beleza antiga. Eram de mármore pálido, e a sua nudez era doce e melodiosa. Outrora, no tempo dos idílios divinos, quando ainda vivia o grande Pã, e havia deuses debaixo das estrelas, elas viviam entre os jogos, as coreias, a luz e as flores: brancas, como as espumas iónias; serenas como a lua de Delos; melodiosas, como a voz das sereias. Agora andavam perseguidas e errantes pelas florestas sonoras, e envolvidas na consolação imensa, que sai do canto das aves, e da frescura das plantas. Ás vezes um cavaleiro, batalhador escuro, que voltava das cidades de ouro e de coral, encontrava uma das brancas peregrinas, como uma aparição de languidez e de tristeza, evocada pela música das ramagens. E se ele por acaso deixava mergulhar nos seus olhos os raios brancos e aveludados dos olhos de mármore, ao outro dia os caminheiros, os que vão de noite cantando à mole claridade das estrelas, encontravam, junto das grandes árvores pensadoras, um corpo inanimado e lívido, como aquelas crianças das lendas, a quem as bruxas chupam o sangue! Esta história é de há seiscentos anos e de ontem à noite... XIV Por fim, tu eras simplesmente uma alma preguiçosa e uma pele macia. Todos os teus pensamentos se moviam numa comédia extravagante e solta. Abafavas burguesmente a música do teu corpo em xales pesados e largas saias: e a seda dos teus vestidos tinha um frémito indefinido de sarabanda - e de cachucha. XV Eu andava perdido pela floresta escura e sonora. As estrelas, como grandes olhos curiosos, espreitavam através da folhagem. Eu era o tenebroso, o inconsolável, o viúvo. Errava pela floresta, e a espaços cantava uma canção vagamente triste como o sussurro dos ciprestes; depois dizia palavras iradas e ásperas como os cardos; - e mais adiante uma oração indefinida enchia-me todo o coração, e saia-me pelos lábios, como uma açucena branca que se abre, dentro de um copo, e que o enche. E por cima de mim, ó meus amigos! ó minha bem-amada! os ramos estendiam-se para os mil e mil pontos do infinito, como para mostrar às cantigas, às iras e às orações todos os caminhos do Céu. XVI Tu pensavas que o teu amor me envolvia molemente como um largo vestido de seda, todo forrado de arminhos. Um dia, ô minha bem-amada de cabelos cor de amora! vieste despir-mo de golpe, com um rosto colorido de risos. Mas o vestido estava colado ao corpo vinte vezes colado ao corpo: e tão rapidamente o tiraste, que me rasgou pedaços de carne, e levou-me jorros de sangue, e arrancou-me os cabelos, e deixou-me, ó minha bem-amada de braços de aço! como uma forma longa, vermelha e indefinida! XVII Quando te amava e pensava em ti, via-te soberba como o mundo, e eras para mim a terra, o céu e o mar. Agora vejo que tinha razão; porque és tão vária como o céu, tão fria como o mar, e tão dissoluta como a terra. XVIII Eu abri aquele coração, que era delicado, pequeno e feminino. Descobri lá dentro vagamente uma floresta medonha, que se debatia e rugia, como uma multidão de doidos sinistros, todos vestidos de ramos e de folhas: na sombra andavam os olhos redondos e famintos dos lobos: por cima da folhagem mugidora esvoaçava, balouçada por ventos imensos, uma confusão de sombras, que uivavam e se arrepelavam, e rasgavam com os ossos dos cotovelos as carnes moles, e lambiam o sangue que escorria as órbitas sem olhos, e davam beijos selvagens, enroscadas e desfalecidas em voluptuosidades mais mórbidas do que os orvalhos da Lua. Depois fixei o coração da minha bem-amada, e vi-o outra vez delicado, pequeno, e feminino; e tão feminino, tão pequeno, e tão delicado, que lhe dei um beijo! XIX Eu ia para baixo dos arvoredos, para junto dos rios e olhava para as nuvens. Tudo me parecia despovoado e apenas como a sombra de uma vida distante. Outrora ó lendas de encantos e de amores! ó rondas aéreas das nixes por entre a música dos canaviais! ó ondinas húmidas! ó danças nebulosas das wilis! ó espíritos gentis e vaporosos, que andáveis nos aromas das violetas! ó elfos pequenos, que adormecíeis dentro do cálice dos lírios brancos, embalados como num berço! ó doces e enganadoras criaturas, que povoáveis e alumiáveis tudo como estrelas românticas! outrora os rios, o céu e os arvoredos encobriam-vos, ó invisíveis! mas como um tecido fino, que deixa passar todos os aromas e todas as cores. E agora os rios, o céu, os arvoredos estão desertos. Os arvoredos só contam, como velhos palradores, histórias de gigantes, loucas legendas de combates e feitiços, e as aventuras das filhas da folhagem. O céu tem apenas nuvens, que erram lentas e pesadas como os pensamentos sérios dum crânio imenso. Os rios vão sempre cantando e fugindo, como os amores da mulher. XX Andamos todos sofrendo. Passamos lentos, desconsolados e alumiados pelo sol negro da melancolia. Nem largos risos, nem bênçãos fecundas. A esperança fugiu para além das estrelas, das nuvens e dos caminhos lácteos. Nos corações nascem amores sombrios e loucos. E tudo porque um dia nasceu uma criança estranha, que foi alimentada com um leite mórbido como a Lua, e envolta numa túnica lívida como a morte! XXI Onde estará ela agora a minha bem-amada, aquela criança de olhar profundo? Era naquelas almofadas que ela se recostava: era por ali que ela passava e as flores do tapete, sob a pressão dos seus pés, viviam e perfumavam. A pé! a pé! meus desejos! Acordai, acordai, e ide buscar-ma. Acendei todas as estrelas, e ide procurá-la pelos caminhos escuros! Desgrenhai os cabelos verdes das florestas! Assoprai a espuma, das ondas! Dispersai as multidões! Quebrai os encantos! Ide procurá-la pelos astros! Despedaçai as tendas aéreas, onde vivem os sonhos! Ide, ide, ó meus desejos todos! Eu ficarei esperando, solitário e silencioso, como um pombal donde fugiram todas as pombas. XXII «Perdi a minha bem-amada, e todo o céu está negro, e nem há estrelas que me consolem! Só resta morrer» E o corpo diz à alma: «Adeus para sempre! Ó exilada divina, tu vais morrer! ó flor dos sonhos, tu vais desfazer-te com todos os teus aromas! Lembras-te, filha, como eu velava por ti? Eu andava pálido e triste quando tu sofrias; e, quando te alegravas, andava corado e vestido, de risos. As vezes tu deixavas-me e subias serenamente a torre esguia de marfim, onde habita o ideal; e eu, em baixo, esperava sem olhar, sem voz e sem movimento: e quando descias, iluminada e séria, eu escondia-te voluptuosamente a ti, ó santa! a ti, ô purificada! E agora vais morrer: e nunca mais te verei, ó minha vaporosa filha! Eu vou andar errante e perdido no mundo, por entre a matéria enorme. Vou andar nas árvores e nos astros, nas ondas do mar e na luz dos cometas, nas rosas e nos olhos das mulheres lascivas. Vou talvez cobrir as maiores tristezas vivas, ser a folhagem dos ciprestes e o farrapo dos mendigos! E tu vais sumir-te, ó alma doce e dolorosa» E a alma dizia ao corpo: «Não chores. Devia ser assim! Tu és são e forte: eu sou delicada, indefinida, dolente. Adeus, e perdoa-me. Fui desdenhosa contigo. Queria ver-te frio e mudo. Queria que fugisses daquelas molezas, que são feitas da voz perdida das sereias. Ás vezes queria, na minha ideal seriedade, que te desfizesses em orvalho e pé, para eu poder ir fundir-me na minha imensa alma de luz. Mandava todos os meus desejos para aquele paraíso de sombras, onde anda a alma de Ofélia. «E quantas vezes, ó meu corpo bem-amado, eu não seduzi os teus olhos a que seguissem as viagens imensas das estrelas! Então não sabia ainda, que havia de cair e desfazer-me, como uma gota de água! Adeus! Em breve não te lembrarás mais de mim. «Há-de nascer-te uma outra filha, e depois outra, e outra. E tu hás-de estreitá-las apertadamente, ou elas se chamem alma como eu - ou se chamem aroma ou, então, se chamem som. «Adeus! Escuta: se nas tuas peregrinações através da matéria, encontrares os átomos daquela que eu tanto amei, não te juntes com eles; porque, se vos juntardes no cálice duma flor, a flor há-de mirrar-se; se for na luz duma estrela, a estrela há-de apagar-se; se for nas águas do mar, o mar há-de gelar-se ... »
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